<i>Comunistas escritores – Roteiro de Leituras</i><br>de Sérgio de Sousa
Segundo Julia Kristeva o nosso tempo está «mergulhado na linguagem». Estamos reféns de múltiplos códigos, de signos semânticos que constróem a nossa hodierna fala e os modos como a usamos através dos suportes para a sua difusão: telemóveis, computadores, banda desenhada, jornais, o vizinho que nos aborda, tertúlias com os amigos, livros, filmes, teatro. Uma plêiade de linguagens que nos influenciam e vão moldando; linguagens que possuem virtualidades singulares, especificidades, ordenamentos, similitudes.
A linguagem, o modo como usamos a língua, expressa a nossa forma de pensar, as classes e suas lutas, as nossas perplexidades. Ainda Kristeva: «Para captarmos a linguagem, temos de seguir o rasto do pensamento».
Vem isto a propósito do mais recente livro de Sérgio de Sousa Comunistas escritores – Roteiro de Leituras, no qual o autor percorre, em busca da empíria que os textos transportam, numa leitura atenta, substantiva e sagaz, analisando com rigor os livros amados, roteiros impressivos da história do século XX português, das lutas e dos fenómenos literários que o atravessaram, fazendo-o de modo sensitivo e cúmplice (Sérgio admira os autores e deixa-se seduzir pelos livros sobre os quais a sua incursão crítica se demora), os universos ficcionais de um núcleo de criadores que teve, como atitude filosófica, um específico olhar sobre a realidade e o modo dialéctico como nos seus textos abordaram as pulsões político/sociais do seu tempo; reflexões estruturantes sobre um punhado de livros que expõem, figuram e reconfiguram o humano.
Este livro de Sérgio de Sousa inscreve, face aos textos estudados, uma atitude analítica de sentido ontológico, ordenada por respaldo estético (existe, no específico literário que este livro aborda, uma estética comunista ou, tão-só, modos diversos de confrontação do real?), seguindo um critério lato que contempla a literalidade dos paradigmas que os suportam. O que neste livro sobreleva, o modo como nele se especula sobre o real e a sua transfiguração, se é do território da sensibilidade, uma sensibilidade fecunda e culta, é também produto de um saber de análise que nega o efémero e se detém na essência dos livros que tocaram de modo perene o autor de Trilha Encoberta; que reflectem uma linguagem que antes de ser literária é cívica, ou seja, específica de um modo de pensar e agir, de alteridade, sobre os movimentos sociais e a responsabilidade que o escritor inscreve nesse domínio. Daí que Sérgio, assertivo, subalternize no título o adjectivo escritor, antepondo-lhe o de comunista, significando que a função, de escritor, será consequência do modo como as palavras são pensadas, como os autores captam a linguagem, para lhe darem representação, sentido e conteúdo social; o escritor como agente crítico da história, num processo dialéctico e materialista.
Seriam escritores caso não fossem, ou tivessem sido, comunistas ou, dito de outro modo, escreveriam os textos que Sérgio analisa se os universos conceptuais que os estruturam não resultassem de uma forma específica de pensar o mundo, de o interpretar face aos mecanismos determinantes do marxismo? É essa condição, mais do que qualquer outra derivante, que os terá levado à escrita, a estes cerca de quatro dezenas de títulos que são pretexto de inquirição crítica neste Roteiro de Leituras.
Não há, portanto, uma configuração estética distintiva, como não haverá uma linguagem que inscreva nestes textos uma unidade semântica, dado que os seus autores vêm de gerações e classes sociais diferentes (p.ex.: Avelino Cunhal/Modesto Navarro; Alves Redol/Ana Margarida de Carvalho), tiveram experiências de vida e formação académica diversas, inusitadas abordagens, sintácticas, formais, da coisa literária e da utilização da língua. Até porque, seguindo Saussure, tomada no seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita, a cavalo sobre vários domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, pertence ainda ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria dos factos humanos, porque não se sabe como destacar a sua unidade.
Recorramos, para clarificar a questão, ao autor: «Comunistas Escritores.// Nem todos comunistas, uns poucos compagnons de route.// Nenhum que não considerasse a divisão social dos homens em classes de explorados e exploradores e a luta entre elas como motor da História, e nos seus escritos focados no presente livro não tivesse tomado posição a favor dos combatentes pela liberdade e fraternidade». Nem mais.
Eis as coordenadas, as naturezas programáticas, que justificam este livro e o tornam um documento singular e essencial para a compreensão, estudo e perspectiva, de um conjunto relevante de obras literárias que atravessam o século XX e os anos que fazem este nosso século XXI; também para o entendimento da contemporaneidade, do país que habitamos e do modo peculiar como estes escritores no-lo escrevem, o sentem, o sofrem.
A respiração analítica de Sérgio de Sousa é sóbria, o verbo a sublinhar-se rendido, arguto, metódico, sempre ágil e acessível, sem recorrer ao jargão academizante; prosa lenta, substantiva, modelar, elegendo os caminhos menos óbvios de introspecção crítica, optando pelo descodificar dos períodos textuais em que a palavra é instrumento do pensamento do autor e, neste processo, trazendo ao discurso vasta acumulação de conhecimentos e referências que determinam e contribuem para a plena desmontagem do texto e dos subsidiários intertextuais. Dá-nos, deste modo, a intensidade derivante que estabelece o processo críptico do discurso narrativo, nesse âmago onde o olhar menos dextro do leitor terá dificuldade em penetrar, ampliando o desenvolvimento, a cosmocidade textual, revelando o que nestas ficções (contos, romances, narrativas) se inscreve como instrumentos de partilha, vivências, emoções, revoltas, percursos singulares de vida.
Sérgio de Sousa sabe que os textos que analisa se circunscrevem a esse espólio restrito da dignidade e da lisura intelectual e cívica, espaço fabular onde as personagens reflectem o Histórico e suas singularidades, encenam um tempo e circunstâncias particulares, e que alguns desses textos, pela sua força e verdade, produziram incisões formais e ideológicas fecundas e prolongadas, penetrando o imaginário dos leitores muito para além do tempo da sua gestação: um vasto número destes títulos são património incontornável da nossa Literatura. O autor sabe-o, e sublinha-o neste livro.
Sérgio de Sousa transporta para a análise destes textos, para além de elementos cronótopos, uma multiplicidade de sequências ordenadas em que o discurso argumentativo se entrelaça com outras artes, transformando este Roteiro de Leituras, num brilhante e invulgar exercício ensaístico, cumulativamente exaltação e homenagem a um grupo de autores e de livros a que a tacanhez do nosso meio cultural, a demissão da crítica instalada e os preconceitos ideológicos não permitiram dar relevo, divulgação e atenção crítica que na abalizada análise de Sérgio de Sousa, obviamente, mereciam e justificavam. Este livro vem preencher, de modo exemplar, esse vazio.
Comunistas Escritores – Roteiro de Leituras – Edição Página a Página/2016